Bastava enxergar um ponto colorido no céu e pensava: um dia estarei lá, um dia vou perceber o mundo se aproximar de maneira gradual e decrescente. Um dia vou saltar de paraquedas.
Houve uma época em que morei em uma cidade povoada desses pontinhos coloridos, corajosos e esfuziantes no céu.
Naquela época havia vontade, mas não havia dinheiro.
Ao longo daquele tempo me atrevi a olhar mais para o céu do que para a terra – sequer lembro da cidade em si.

Há poucos meses decidi que iria saltar ainda este ano, e assim, realizar um sonho e celebrar minha fase atual.
Ontem foi meu dia.
Diferente do que imaginei. Mas foi. Acordei de madrugada para preparar um assado para publicidade – onde o Natal já chegou.
Organizei os demais preparos. Organizei minha rotina.
Dormi pouco e mal. Dirigi bastante.
E fui, em segredo.

Pista do aeroporto de Torres. 

Já no avião, o medo se apresentou de maneira desconhecida – feito um turbilhão, tornou minha boca seca, minhas mãos trêmulas e me impediu de olhar para baixo e para os lados. O vento, em uma intensidade insana.

Eu ali, na porta, presa. Ao medo.
E o céu a um pequenino passo – palpável, gritante, novo.
Tive vontade, tive receio, tive coragem de chegar até lá.
Mas não tive a iniciativa para saltar. Ou melhor: queria desistir.

Fui guiada de uma maneira tão sutil que não vi.
No céu, a paisagem se fez imensa e o vento se fez abraço.

O medo já não era companhia. Ao contrário, havia a presença de um instrutor seguro, capacitado e atencioso – desde o início. E outros dois paraquedistas super motivados.

O empurrão certo, na hora certa, pode ser decisivo.
A escolha da melhor companhia também.

Por uma vida com mais empurrões.
Por empurrões bem acompanhados.

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Entre o frio e o calor
O cru e o cozido
O salgado e o doce
A entrada e o principal
A sede e a fome
O limpo e o sujo
O elogio e a crítica
O principal e a sobremesa
O imprevisto e o esperado
O esforço e o cansaço
O freezer e o forno
O doce e o ácido
O ingrediente e o prato
O fogão e a geladeira
A pia e o chão
A técnica e o preparo
O sólido e o líquido
O início e o fim
Entre tantos extremos existe um universo – o da cozinha.

 

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Quero trabalhar com algo que permaneça além da lembrança.

Na cozinha é assim: se trabalha o dia inteiro e pá, o resultado é devorado em poucos minutos.

E no outro dia é assim. Na outra refeição também.

Na verdade, sempre é assim.

Dessa semana me restam pernas inchadas, costas doloridas e odores insistentes.

 

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Eu e as crianças, o bolo (sem foco, bem sei), Jajá e as alunas.

 

Nessa quarta chuvosa, percorri a via do afeto e da solidariedade e levei bolo para Jajá e sua turma de alunas – a Lívia, as Ingrids, a Brenda, a Camille, a Miriam, a Vitória – e o Guilherme, único aluno.

Jajá é uma amiga queridona, dona de uma energia única que dá forma a projetos apaixonantes. Ela é aquele tipo de pessoa com quem eu gostaria de conviver mais – é agregadora e mantém uma visão própria, repleta de sensibilidade e empatia para encarar o mundo. Mas, nossas agendas não permitem. E a cada vez que me despeço dela, penso: é uma pena que convivemos tão pouco.

Fiz um bolo simples, de cacau e cobertura de chocolate. Levei limão siciliano, colhido ao lado de casa. Algumas castanhas. E um ralador.

O objetivo era presentear a turma da Escola de Tudo, aula criada pela Jajá, onde ensina as crianças da Escola Timbaúva, no bairro Mário Quintana a possibilidade de diferentes interesses, para que conheçam outras realidades e quem sabe, façam escolhas distintas – essa é a versão abreviada de um projeto repleto de valor e empatia.

Jajá ensinou a turminha a preparar leite de amendoim com cacau. Eu acompanhei a decoração do bolo. E enquanto ensinava a ralar as castanhas e o limão, espremer o suco e espalhar a cobertura, ouvi suas histórias.

 A timidez e insegurança de uma menina muito talentosa para desenhar, a educação de outra aluna, o capricho e detalhismo ao preencher o caderno a respeito das férias, a carência de quem aos onze anos já não tem pai e mãe e o carinho e admiração pela profe Jajá.

A alegria em entoar o mantra, em comermos juntas, a mão que segura o bolo e distribui o afeto.

O limão, a castanha, o cacau e o leite de amendoim.

Tudo junto. Todas nós juntas.

Era para ser só um bolo, era para ser só a junção de alguns ingredientes.

Mas foi muito mais.

Jajá, obrigada por me permitir participar da Escola de Tudo.

Termino essa noite chuvosa escrevendo, emocionada. Privilégio.

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Eu, Eliza e o bolo!

 

Toda situação tem dois lados, logo, uma expressão também pode ter dois lados.

Certo?

Pois é, foi este foi meu raciocínio ao criar a nova categoria do blog: levei bolo.

Por sorte, destino ou acaso, levei bolo e dediquei este texto – o primeiro de muitos, assim espero – a alguém que admiro e em uma situação muito especial: Eliza Ciarelli.

Eliza foi minha colega de teatro e embora sua simpatia, lindeza e sorriso a coloquem no centro do palco, é na convivência que se conhecem suas outras facetas – tão ou mais brilhantes.

Foi no intervalo de uma aula que Eliza contou, com sua mistura de otimismo, determinação e brilho no olho que gostaria de trabalhar na Europa.

Pois é, este dia chegou – na próxima semana será transferida para a Holanda!

Assim como também chegaram os outros dias, com outras realizações nestes meses.

Acho que um dos segredos da Eliza é não deixar de sonhar e de manter o respeito pelo trajeto.

Entre um passo e outro, um sorriso, um abraço, uma amizade.

E um sonho a buscar.

Pois levei bolo de chocolate – amargo, denso e guloso e sorvete de baunilha de Madagascar para Eliza, em seu churrasco de despedida.

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